quinta-feira, 21 de junho de 2012

Bariloche. A fênix da neve


Conheci Bariloche aos 15 anos, por incrível que possa parecer, através de relatos e experiências vividas por amigos e conhecidos meus. Sempre tive vontade de conhecer a "Fênix da Neve". Me lembro nos meus tempos de colégio, quando amigos meus me contavam por horas a fio, seus diários de viagens nas férias de inverno, na metade do ano letivo. Claro, eu, ficava maravilhado em êxtase só ouvindo. Uma amiga minha havia me relatado a  primeira vez que voava, e teve a sorte de aterrissar olhando o cenário desde a cabine do avião, pois o piloto era pai de um colega da escola. Viajavam no jato da Aerolíneas Argentinas ela, seu pai e sua avó, que era, de fato, a responsável por aquela viagem (um presente que ganhou de aniversário). Para a maioria dos jovens argentinos, ela fora uma delas, o sul do país tem uma dimensão meio mística. É a natureza profunda, anímica. Mas Bariloche é também o seu oposto, o lazer aguardado, o destino número 1 de férias, a Porto Seguro gelada. Milhares de estudantes argentinos vão à cidade como prêmio de formatura e têm ali o rito simbólico do fim da adolescência. 

Bariloche, ou São Carlos de Bariloche, seu nome oficial, tem, pode-se dizer, as cores da bandeira argentina, o céu muito azul contra o branco de seus picos nevados. É assim que os brasileiros a querem, pois viajam para cá no meio do ano, quando se abre a temporada de esqui. O português ou um pouco esforçado portunhol domina as conversações na cidade em julho. Não é a língua que se ouve em janeiro, no verão. No inverno, o português deixou saudade. A cidade ficou às moscas, ou melhor, às cinzas (às cinzas do vulcão chileno Puyehue, que interromperam o tráfego aéreo na região e, por consequência, derrubaram o turismo de Bariloche). Em 2012, se a cidade não assiste a lançamentos hoteleiros nem tem grandes novidades em seus centros de esqui, carrega as mais altas expectativas, já que o número esperado de visitantes pode estar estimado em mais ou menos em até 20 mil brasileiros nesta temporada, segundo o próprio turismo local.


O vilão, o Puyehue, se acalmou, o que não significa que tenha cessado sua atividade. De qualquer forma, o aeroporto não enfrentou mais problemas e se tornou o mais seguro da Argentina. A pista foi reformada, e um sistema que mede a concentração de cinzas na atmosfera começou a funcionar. Se, como dizem na Argentina, “não há mal que por bem não venha”, para o incremento do aeroporto as cinzas certamente serviram. Bariloche já tem seu mascote oficioso deste inverno: a ave fabulosa fênix, que renasce das cinzas. Os 120 vôos charter esperados desde o Brasil são suas asas.


Principal estação de esqui da Argentina, Cerro Catedral volta a exibir suas atrações aos brasileiros, especialmente para aqueles que sabem, ainda que mais ou menos, esquiar. Depois do snow tubing e do esqui de fundo (prática com equipamento mais leve e em pistas mais planas) dos anos recentes, a novidade de 2012 é de ordem administrativa, com a concessão da montanha à iniciativa privada. Não somou nenhum metro de área esquiável a seus 120 quilômetros de pistas, mas divulga melhorias em segurança e manutenção de equipamentos. Justi Olivieri que, aos 59 anos e 70 temporadas de esqui, incluindo algumas delas na Europa, chefia 450 instrutores na escola de Cerro Catedral, na base da montanha. Segundo ele, os brasileiros “são divertidos, indisciplinados e costumam aprender rápido porque têm boa relação com seu corpo”É claro que sua opinião ao se manifestar é diferente quando lhe perguntam sobre a relação dos brasileiros com a bola. O que é fato. Mas Catedral é a grande estação, onde a neve se espalha por outros lugares. Numa das faces do Cerro Otto, famoso pela confeitaria giratória a 1.405 metros de altitude, está o Centro de Esqui Nórdico, onde a brincadeira é andar de quadriciclos adaptados por bosques de onde se vê o lindo Lago Nahuel Huapi. Trenós puxados por motos também podem ser usados. O turista mais sustentável talvez prefira caminhadas sobre a neve, em raquetas. É uma interessante opção para um passeio em família, quando os filhos ainda não descartam a companhia dos pais por estes não saberem fazer slalons ou outras manobras radicais. Do outro lado do Otto está Piedras Blancas, com cinco pistas para a prática do famoso e conhecido esquibunda (esporte praticado também nas dunas de areia na região Nordeste brasileira, durante o verão, alta temporada).


Hotéis que vão para sua primeira grande temporada de inverno na cidade, como o Alma del Lago, categoria cinco-estrelas que pode até ser considerado em Bariloche, o próprio Taj Mahal para o hóspede. Mas as suítes de cerca de 40 metros quadrados estam mais para Lost in Translation: um luxo contido, executivo, fio, moderno, sem rococós ou objetos de decoração que imaginamos como se estivéssemos na casa da abuelita tirolesa. No térreo, há sauna seca e úmida, além de uma piscina de 17 metros com bela vista do Lago Nahuel Huapi. Já o Villa Huinid, de acordo com o que dizem os turistas, o tratamento é melhorzinho. O local tem apartamentos no prédio principal e cabanas mais isoladas e um spa com tratamentos faciais. A grande referência hoteleira de Bariloche segue sendo o Llao Llao. São 205 quartos, campo de golfe de 18 lugares, spa e um salão de chá que pode justificar a visita caso você não possa ou não tenha interesse de se hospedar ali.


Um bom catre e uma boa gastronomia, também não ficam atrás em Bariloche. Isso, porque agora que pipocam pela metrópole bares dedicados a cervejas artesanais, acabou se tornando um novo vício dos brasileiros, eles não sofrerão de abstinência em Bariloche. Hoje já são cerca de 20 pequenas cervejarias na cidade, e seus donos começam a se organizar para ofertar uma experiência mais completa. O slogan da associação, eles já têm: “Feliz encontro entre as pessoas”. Nesses estabelecimentos, às vezes a fábrica está dentro do bar, e não o contrário, como no caso da Blest, a pioneira. O funcionários do estabelecimento, explicam que a qualidade e a pureza da água local e o lúpulo que se consegue pela região são fatores determinantes para a qualidade do produto. Há até uma levedura de cerveja nativa dos bosques da Patagônia, que é elaborada a partir do fungo llao-llao e que deu origem à levedura híbrida que hoje se usa correntemente na produção das cervejas do tipo lager. A alguns quilômetros da Blest, Ángel Perticará, dono do Konna, na área central da cidade, reafirma o espírito de fraternidade nativo. Diz ele que os produtores artesanais se cotizam para apresentar seus rótulos em feiras e encontros. “Já ganhamos prêmios em Blumenau.” No fim de novembro, Bariloche tem um evento marcado, que é o primeiro Festival Latino-americano de Cerveja Artesanal, com direito a degustações, cursos, charangas e muito consumo do precioso líquido.


Como todo recanto invernal, Bariloche é também famoso por seu chocolate. A família Fenoglio, italiana, foi a pioneira em uma década que já se perdeu nas brumas. As marcas Rapa Nui, El Turista, Mamushka, Fenoglio, Abuela Goye e Frantom se destacam. Na Frantom, o cacau vem da Bahia, que, de tanto observar os brasileiros que acorrem à loja, os define como “gente a quem é melhor nada impor”. Curioso constatar que os brasileiros acabam por vir a Bariloche repatriar, agora elegantemente empacotado, o alimento tropical de seu país. São as voltas da vida. 


Mas esse é um caso de exceção. A culinária de Bariloche tem sabores que são próprios. Peixes de água doce, como a truta e o salmão; animais típicos destas latitudes, como o cervo, o javali, o cordeiro e sobremesas preparadas com frutos finos como arándanos, framboesas e outros berries. Tudo isso se pode desfrutar em lugares como o El Patacón, um dos restaurantes de insígnia de Bariloche, que tem também uma festejada truta negra. Perto do Llao Llao, o Il Gabbiano, é um irresistível convite ao passante com sua fachada de madeira. Salmão, ravióli de abóbora e coelho ao alho se fazem acompanhar por uma carta de vinhos completa que inclui rótulos italianos e franceses.


Como diria o compositor e poeta musical argentino Spinetta, Bariloche faz bem. “A neve borra a maldade e cura todas as feridas da alma”. Abençoado seja.



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